Quinta-feira, 9 de Abril de 2009
António Gedeão - Trovas para serem vendidas

Trovas Para Serem Vendidas na Travessa de S. Domingos


O repórter fotográfico


foi ver a fuzilaria.


Ganhou o prêmio do ano


da melhor fotografia.




Notícias não confirmadas


informam, de origens várias,


que as tropas revolucionárias


recentemente cercadas


acabam de ser esmagadas


com perdas extraordinárias.




Na redação do jornal


corre tudo em sobressalto.


A hora é sensacional.


Toda a gente dormiu mal,


gesticula e fala alto.




Passageiros recém-chegados


do lugar da revolução


viram dúzias de soldados


prontos a ser fuzilados


e muitos já arrumados


e amontoados ao chão.




Agora que se anuncia


já estar regulado o tráfico,


inda mal rompera o dia


foi ver a fuzilaria


o repórter fotográfico.




Vá lá, vá lá, felizmente,


felizmente que ao chegar


inda havia muita gente


que estava por fuzilar.




Numa ridente campina


de papoulas salpicada,


um sol de lâmina fina


cortava a densa neblina


da metralha disparada.




Berrando como vitelos


a malta dos condenados


avançava aos atropelos


e arrepanhava os cabelos


com gestos alucinados.




O repórter já suava,


não tinha mãos a medir;


ora a máquina carregava,


apontava e disparava,


ora no chão se agachava,


pulava e gesticulava


com afanosa presteza.


Há empregos, com franqueza,


nem haviam de existir.




A um tipo de mãos nojentas


que aos berros sobressaía


gritando frases violentas,


focou-o mesmo nas ventas


no momento em que caía.




Mas o melhor não foi isso.


O melhor foi uma velhota


que pôs tudo em rebuliço.


Rápida como um rastilho,


em convulsivos soluços,


foi estatelar-se de bruços


sobre o corpo do seu filho.




— Meu menino, meu menino!


Valha-me a Virgem Maria!


Que vai ser o meu destino


sem a tua companhia?!


Mataram-me o meu menino!


Filho do meu coração!


Que vai ser o meu destino


sem a tua proteção?!




Nunca uma cena de horror,


uma tragédia tão viva,


tão grande expressiva dor,


alguém teve ao seu dispor


defronte duma objetiva.




Era uma face crispada,


um olhar perdido e louco,


uma boca de xarroco


em lágrimas ensopada.




Foi uma sorte, realmente.


Um desses casos notáveis,


bestiais e formidáveis


que acontecem raramente.




Aquelas faces crispadas


correram pelo mundo inteiro


nas revistas ilustradas,


em tiragens esgotadas


que deram muito dinheiro.




Com aquele sentido humano


da justiça e da harmonia,


o repórter todo ufano,


ganhou o prêmio do ano


da melhor fotografia.

 

António Gedeão

publicado por Odracir às 15:21
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